Controles remotos de televisão: análise e problematização de design, usabilidade e ergonomia

Resumo

Neste artigo se discutirá sobre falhas de design pertinentes em controles remotos de aparelhos de televisão, considerando aspectos de usabilidade e ergonomia dentro dos contextos de uso.

Introdução

Controles remotos, apesar da comodidade que oferecem, são, em geral, dispositivos mal projetados. A maioria dos controles oferecidos no mercado são desenhados com abordagens não-centradas no usuário, pois seus fabricantes preocupam-se em oferecer enorme quantidade de opções a um toque de botão de distância sem necessariamente entender quais os contextos de utilização dos controles remotos e as necessidades do usuário em cada um desses contextos.

Paradoxo da escolha

O resultado da abordagem de design centrada nas tarefas (e não no usuário) são painéis de controle com uma infinidade de opções diferentes a serem escolhidas. Os controles remotos de televisão, objeto de estudo específico deste artigo, oferecem em média 30 botões em seu painel.

Segundo Nielsen (2004), apenas 33% dos botões disponíveis são usados com frequência. Tal afirmação pode ser reforçada pelo paradoxo da escolha, definido por Schwartz (2004), que diz que quanto mais opções você der ao usuário, menor será a probabilidade de querer escolher uma opção e menos feliz o usuário ficará com as escolhas que fizer.

Deve-se considerar, entretanto, que os controles remotos são dispositivos que existem sobre vínculo primariamente funcional com o usuário. Fatores como felicidade e engajamento não são tão relevantes no caso deste tipo de produto pois são utilizados pelo usuário especificamente quando procuram pela execução de uma tarefa. Desta forma, apesar de não ser necessário pensar nos fatores emocionais de uso dos controles, é importante pensar na usabilidade para suprir satisfatoriamente a demanda funcional.

Análise de ergonomia 1: fator conforto

A ergonomia dos controles remotos tem evoluído com o passar dos anos. Revisitando o histórico de sua produção, os primeiros modelos tinham dimensões desproporcionais às do homem, sua largura e altura geralmente não se encaixavam nas mãos do usuário (Figura 1).

Controle remoto antigo (fonte: http://bit.ly/eVxc5)

Figura 1. Controle remoto antigo (fonte: http://bit.ly/eVxc5)

Seu formato foi evoluindo gradualmente com o passar dos anos, tornando-se mais estreito e arredondado (Figura 2). O corpo é geralmente feito de plástico com botões em borracha, materiais que de certa forma conferem durabilidade ao dispositivo, logo o fator material não tem se mostrado um problema ao longo dos anos.

Certas operações, entretanto, são difíceis de ser realizadas. É o caso da substituição de baterias, cuja tampa (geralmente encontrada na parte traseira) em muitos controles é difícil de ser removida e possui vincos e partes frágeis, que em muitos casos se quebram após certo uso ou se encaixados de mau jeito. Além disso, muitos controles remotos não deixam espaço suficiente para que o usuário consiga retirar as baterias com os dedos, sendo necessário o uso de auxílios externos para sua remoção, como pinças e clipes.

Proposta de controle remoto centrado no usuário (fonte: http://bit.ly/1qjWVr)

Proposta de controle remoto centrado no usuário (fonte: http://bit.ly/1qjWVr)

Controles remotos ergonômicos ainda não são realidade em todos os cenários. Os modelos de controles universais geralmente são os que apresentam mais características ergonômicas, como o corpo em forma de “amendoim” do controle Logitech Harmony 880 (Figura 3), que possui inclusive distribuição do peso maior na parte superior do controle, para aprimorar o equilíbrio.

Logitech Harmony 880 (fonte: http://bit.ly/H0ZRU)

Logitech Harmony 880 (fonte: http://bit.ly/H0ZRU)

Vale ressaltar, porém, que ao contrário de mouses de computador, o usuário usa controles remotos com pouca frequência, apenas quando pretende executar uma função. Durante todo o consumo de conteúdo o usuário não precisa utilizar o controle remoto, logo deve-se oferecer certo nível de ergonomia para garantir um mínimo de adaptação da forma ao corpo humano. Ao contrário do mouse, que trabalha numa arquitetura voltada a realização de tarefas e navegação através de comandos e cliques contínuos, o usuário precisa usar constantemente o mouse para prosseguir a execução de tarefas.

Pode-se dizer, desta forma, que o investimento em ergonomia em mouses é maior do que em controles remotos de televisão, já que o primeiro é utilizado com mais frequência e que a má ergonomia destes dispositivos pode ser prejudicial à saúde, considerando o maior tempo de exposição e uso do produto.

Análise de ergonomia 2: fator desempenho

O desempenho dos controles remotos de televisão muda de acordo com a complexidade das tarefas a serem realizadas. Tarefas mais comuns geralmente são priorizadas na distribuição dos botões, seu acesso entre as opções é mais visível e, logo, mais rápido de ser entendido e utilizado.

Considerando o problema de paradoxo da escolha levantado anteriormente, o desempenho para tarefas complexas em controles remotos de televisão é geralmente baixo, pois tarefas complexas geralmente encontram-se misturadas e os rótulos dos botões não são descritivos o suficiente para informar com clareza sua função.

Nielsen (2004) cita exemplos de rótulos como AUX, lock, fav, DSS Cable, Zero/C/A Skip, ADD/DLT, M/A Skip, SAP/HiFi, FQ+, FQ-, MD/Tape, DSP Mode, ATT, entre outros, que são de difícil compreensão para usuários comuns.

Mapeamentos, hierarquia e modelos mentais

Um fator importante considerando o controle remoto como interface é como estruturar os botões de modo a tornar a compreensão das opções mais fácil e a realização de tarefas mais ágil. A maioria dos controles remotos de televisão hoje fazem mapeamentos aceitáveis de funções elementares como liga/desliga e controles de volume e canal.

Há que ressaltar, entretanto, que há diferenças na maneira como os fabricantes e designers abordam esses mapeamentos e representações. Por exemplo: em alguns controles, os comandos de volume e canal usam setas direcionais horizontais e verticais, respectivamente, e em outros utilizam o inverso. Diversos controles utilizam outras disposições de botões para representar estes controles, além de possuirem setas direcionais que são utilizadas em outras conotações.

Além disso, enquanto alguns controles dispõem o teclado numérico com a mesma organização dos telefones, que já se tornou um modelo mental sobre o funcionamento de teclados numéricos em geral, outros modelos de controles simplesmente ignoram essa disposição em favor de distribuições que fazem o usuário errar mais até que se acostume com a organização oferecida.

Conclusão

Analisando os problemas encontrados com controles remotos de televisão, o maior problema não diz respeito à ergonomia, e sim à usabilidade. Com a tendência de embutir mais funções nos equipamentos eletrônicos, costuma-se acrescentar mais funções aos seus respectivos controles, que torna mais difícil para o usuário operá-los. Remover funções do controle não é o suficiente, para alcançar boa usabilidade, deve-se reduzir a complexidade como um todo (NIELSEN, 2004).

Pode-se dizer de modo geral que os problemas vem sendo solucionados aos poucos. Contudo, um passo importante para continuar solucionando essas questões é observar a sua utilização não isoladamente, mas em ambientes reais, geralmente envolvem o uso de mais de um controle. Entra-se então em outra discussão, que é a integração entre controles e a padronização de comportamento entre eles, grande problema que só pode ser resolvido conhecendo a dinâmica de uso real.

Referências

NIELSEN, Jakob. Remote Control Anarchy (Jakob Nielsen’s Alertbox). Disponível em: . Acesso em 09/Set/2009

SCHWARTZ, Barry. The paradox of choice : why more is less / Barry Schwartz ECCO, New York : 2004

3 comentários

  1. É um excelente ponto de vista sobre o design de um produto com o qual lidamos todos os dias e que invariavelmente não nos oferece uma boa experiência de consumo.

    Um belo exemplo de como o design pode tornar as nossas vidas melhores nos pequenos detalhes.

    Continue com o excelente trabalho. ;)

  2. Excelente artigo Rafael!
    É um produto que temos muito contato e que pouca gente analisa a fundo a visão de experiência de uso.
    Muito bem apontado.
    Abraço!

  3. Parabéns Rafael! Belo trabalho!
    Trabalho na NET e estamos redesenhando alguns controles remotos. Achei perfeita tua colocação com relação ao atual desenvolvimento dos controles remoto no qual não existe nada de design centrado no usuário e sim nas funcionalidades do aparelho e até mesmo no bussines da empresa. Hoje, como na web um tempo atrás, ainda se vende a tecnologia e não a experiência de uso. Mas a coisa tá mudando…

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