Modelos mentais e como as pessoas os usam incorretamente

Pense em três coisas que você pode fazer com uma escova de dentes, além de escovar os dentes. Você provavelmente deve ter pensado em atividades relacionadas à tarefa de escovar: escovar a pia, escovar um azulejo ou escovar um tapete. Dificilmente pensaria em qualquer tarefa que não envolvesse escovação, como cutucar o colega ou tirar cera da orelha, pois o modelo mental que você formou sobre escovas é simples: elas servem para escovar.

Modelos mentais referem-se à maneira com que utilizamos nossos conhecimentos já adquiridos para tentar adivinhar ou prever o funcionamento de determinado artefato ou aspecto do mundo físico. Este termo foi definido por Craik em 1943, no livro The Nature of Explanation. Os modelos mentais são frameworks conceituais (teorias) para a cognição, sendo amplamente estudados durante o processo de design de produtos interativos para compreender de que maneiras o homem entende, percebe, toma decisões e se comporta em frente a um ambiente ou tarefa.

São importantes para a usabilidade, visto que esta tem o objetivo de tornar as interfaces e a interação mais naturais ao homem. Quando falamos nesta naturalidade de manipulação, nos referimos diretamente aos modelos mentais envolvidos na utilização de um sistema de computação. Apesar de, na maioria dos casos, haver grande carga de aprendizagem a cada nova interface apresentada, com o passar do tempo e com a utilização de mais artefatos computadorizados o usuário desenvolverá modelos mentais mais aprofundados a respeito de interfaces interativas como um todo.

Porém, em diversas situações, o indivíduo utiliza modelos mentais de maneira errônea. Segundo Kempton (1986), citado por Preece (2005), as pessoas usam modelos mentais baseados em uma teoria geral de válvulas. Ou seja, quanto mais pressionar um botão mais o efeito esperado ocorrerá. Como exemplifica Preece (2005), isto é bastante comum com a operação de termostatos, ou de elevadores. Pressionar o botão do elevador diversas vezes ou com força não fará com que o elevador ande mais depressa, ou utilizar uma grande temperatura não fará com que um ambiente se esquente mais rápido.

Em interfaces de Internet ocorre o mesmo, por diversas vezes. O usuário, baseando-se em suas experiências anteriores com interfaces gera modelos mentais que às vezes não são supridos. O exemplo mais simples, e bastante ocorrente em livros conforme mostrado no livro Homepage Usability: 50 Websites deconstructed, de Jakob Nielsen e Marie Tahir (2001), é o de sites que ferem um dos elementos básicos da interface gráfica dos computadores utilizando gráficos com forma de botão mas que não são clicáveis. Neste caso, o resultado decorrente da experiência é frustração, visto que o modelo mental – e, diga-se de passagem, uma das metáforas de interface mais primordiais das GUIs – foi ferido com brutalidade.

Segundo Norman (2004), existe uma filosofia de design que utiliza metáforas de interface na formação de modelos mentais. Porém concorda que nem sempre esta é a melhor diretriz a ser seguida visto que, apesar das metáforas facilitarem o aprendizado, às vezes podem tornar a assimilação mais complexa, considerando que no desenvolvimento de um produto novo não existem muitas referências para tomar por base.

Espera-se então, do designer de interfaces interativas, que consiga oferecer com um produto as orientações básicas para a formação de um modelo mental do funcionamento e operação de um artefato. Há uma linha tênue, porém, que divide a construção de uma interface que oriente a interação e a formação de modelos mentais e a construção de uma interface nova, mas baseada em previsões sobre os modelos mentais que serão desenvolvidos pelos usuários.

Referências Bibliográficas

PREECE, Jennifer. Design de Interação: além da interação homem-computador / Jennifer Preece, Yvonne Rogers e Helen Sharp/ trad. Viviane Possamai. – Porto Alegre: Bookman, 2005

PARUCH, Avi. Interview with Donald Norman on Mental Models. Human Oriented Technologies Lab, 25 de fevereiro de 2004. Disponível em: <http://www.carleton.ca/hotlab/hottopics/Articles/April2004-InterviewwithDo.html>. Acesso em: 12 Jan. 2009

3 comentários

  1. Concordo plenamente, existem diversos tipos de usuários, no entanto, os pensamentos são bem diferentes, creio que a simplicidade aumente muito acessibilidade.
    A maioria dos usuários iniciantes fazem coisas absurdas, isto na maioria das vezes até ajuda, pois eles descobrem erros que pessoas experientes talvez nunca descobrissem, acho que o único mal no usuário novato é a paciência, ele aprende através da mídia que a internet é clicou achou, e com isso logo decepciona-se com esta metodologia enganosa.

    Adorei seu site muito leve e simples.

  2. Aurelio Marco-Peres

    Rfael: Parabéns pelo texto,como seu site, elucidativo, claro, limpo, bem escrito.

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  1. [...] Nesta última categoria, a memória por meio de explicação, é onde Norman vê a forma mais diferente e poderosa, pois é dela que surgem os modelos mentais sobre o funcionamento das coisas. Ele enfatiza também a importância de fornecer ao usuário os modelos apropriados, pois quando eles não são adequados ou não são fornecidos, os usuários tendem a inventar modelos incorretos, como já discutido neste artigo. [...]

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