Notas sobre conhecimento e memória humanos

Estou lendo o livro O design do dia-a-dia, de Donald Norman, e neste artigo quero compartilhar notas sobre o conhecimento e memória humanos, abordados no capítulo terceiro.

Norman diz (1988) que é fácil mostrar que a natureza do conhecimento e da memória humanos é falha, pois o conhecimento exigido para comportamento não necessariamente precisa estar na cabeça: pode ser distribuido entre a cabeça, o mundo e as restrições do mundo . Exemplifica que um de seus alunos descobriu que quando datilógrafos profissionais receberam uma tecla para usar letras maiúsculas, não conseguiram organizá-las na configuração correta. O comportamento adequado pode emergir de conhecimento impreciso por quatro razões: a) quando as informações estão no mundo, b) quando não se requer precisão, c) quando existem restrições naturais e d) quando existem restrições culturais.

Resumindo, o comportamento é influenciado pela combinação do conhecimento interno e das informações e restrições externas. Norman diz ainda que sempre que as informações necessárias para desempenhar uma tarefa estão facilmente disponíveis, nossa necessidade de aprendê-las diminui. Ele cita um exemplo de que, apesar de não sabermos descrever precisamente a aparência das moedas, sabemos reconhecê-las e diferenciá-las umas das outras. O mesmo ocorre com digitação: as pessoas geralmente não memorizam as teclas, mas o uso frequente diminui o esforço cognitivo e torna esse processo muito mais automático.

Conforme Norman diz em seguida, as pessoas funcionam através do uso de dois tipos de conhecimento: o conhecimento declarativo e o conhecimento procedural. O conhecimento declarativo é o conhecimento de fatos e regras, o saber que. Já o conhecimento procedural refere-se a saber como fazer algo, sem necessariamente conseguir descrever este conhecimento.

O conhecimento é geralmente fácil de adquirir pois tudo é projetado de modo a fornecer auxiliares para a memória. Sinalizações e rótulos são indicadores frequentemente encontrados para recordar propósitos e estados de objetos. Além disso, nós mesmos usamos artifícios como anotações escritas para que algo seja lembrado.

Norman então fala sobre essa propriedade geral da memória, de guardar apenas o conhecimento relevante no momento onde algo é aprendido, que desta forma guardamos apenas partes de informações, as suficientes no momento de aprendizagem. Isso significa que, então, esse conhecimento memorizado pode não ser suficiente em uma ocasião futura onde ele seja necessário.

Restrições são mecanismos que servem para simplificar o que deve ser guardado na memória. Se você desmontar um dispositivo qualquer, ele provavelmente terá diversas peças. Neste exemplo, Norman diz que se você quiser montar este mesmo dispositivo novamente, haverá um conjunto de restrições que diminuirão o número de combinações possíveis de montagem das peças, sendo restrições físicas como colocar parafusos apenas em orifícios apropriados ou mesmo restrições culturais, como o sentido de rotação para apertar os parafusos.

A estrutura da memória

Psicólogos distinguem duas classes principais de memória: a memória de curto prazo (MCP) e memória de longo prazo (MLP). A memória de curto prazo refere-se ao presente recente, armazenando informação automaticamente e sendo recuperada facilmente, porém a capacidade desta memória é limitada de cinco a sete itens, relacionadas ao que Miller (1956) chamou de chunking, onde dividir a informação em pequenos pedaços (chunks) facilita sua memorização.

Existem discussões pela Web referentes ao número ideal de itens de menu dropdown envolvendo este termo definido por Miller, porém comprovou-se que neste caso trata-se de pouco mais que – como disse Harrod (2008) – “superstição”, citando Bailey (2000) ou “lenda urbana”, citando Jones (2002). Enfim, a memória de curto prazo também atua como memória de trabalho, ou memória temporária, permitindo que executemos nossas atividades cotidianas. Porém, além de limitada é brastante volátil. Com alguma distração a informação armazenada pode ser esquecida.

A memória de longo prazo, por sua vez, é a lembrança do passado, sendo necessário algum tempo para armazenamento, e mais esforço para recuperá-la. Um ponto que acredito ser importante é que a MLP não registra exatamente tudo o que aconteceu, mas interpretações que estão sujeitas a maneira com que a informação foi compreendida. Desta maneira, é difícil encontrar algo mais tarde se procurar com outra interpretação.

Norman divide a memória, dentro do contexto do capítulo do livro, em três categorias: memória de coisas arbitrárias, memória de relacionamentos significativos e memória por meio de explicação. A memória para coisas arbitrárias armazena informações arbitrárias, sem significado ou relacionamento particular com coisas já conhecidas, sem sustentação de uma compreensão. A de relacionamentos significativos armazena informações que formam relacionamentos entre si ou com outras coisas já conhecidas, como quando precisamos compreender algo antes de armazenar. A memória por meio de explicação não precisa ser lembrada: funciona por dedução através de algum mecanismo explicativo.

Nesta última categoria, a memória por meio de explicação, é onde Norman vê a forma mais diferente e poderosa, pois é dela que surgem os modelos mentais sobre o funcionamento das coisas. Ele enfatiza também a importância de fornecer ao usuário os modelos apropriados, pois quando eles não são adequados ou não são fornecidos, os usuários tendem a inventar modelos incorretos, como já discutido neste artigo.

O ato de lembrar

Uma vez que você memorizou a informação, se precisar recuperá-la é preciso que alguém lhe recorde. Você pode simplesmente manter a informação em sua cabeça, no que os psicólogos chamam de ensaio ou repetição, quando a informação é tão importante que vem à mente repetidas vezes. Porém, se a importância da informação não for tão grande, você pode usar mecanismos do mundo exterior para ajudar a lembrá-lo, como calendários, agendas ou mesmo outras pessoas.

Troca assimétrica entre conhecimento no mundo e na cabeça

Por fim, Norman fala que o conhecimento no mundo e na cabeça é essencial para o nosso funcionamento diário. Mas até certo ponto podemos escolher aprender mais seriamente um ou outro e essa escolha exige uma troca assimétrica – ganha-se de um lado, perde-se de outro. Se por um lado o conhecimento no mundo atua como seu próprio lembrete, ajudando a recuperar estruturas que de outro modo esqueceríamos, por outro o conhecimento na cabeça é eficiente, não exigindo busca ou interpretação do meio ambiente. O conhecimento do mundo é mais fácil de aprender, porém quase sempre mais difícil de usar. E se apóia na presença constante das informações: se o ambiente mudar, as informações mudam também. Já o conhecimento na cabeça, é efêmero: está aqui agora, mais tarde se foi.

Referências bibliográficas

NORMAN, Donald A. O design do dia-a-dia/Donald A. Norman.; tradução de Ana Deiró – Rio de Janeiro: Rocco, 2006.

Chunking – Interaction Design Encyclopedia Disponível em: <http://www.interaction-design.org/encyclopedia/chunking.html>. Acesso em: 31/Julho/2009.

2 comentários

  1. Atualmente, as pessoas usam muitos mecanismos externos para guardar informações, deixando de treinar a memória cerebral. Hoje em dia, números de telefone estão todos na lista de contatos do celular, não mais na cabeça.

    Dia após dia, as pessoas vão fazendo esta substituição e, de certa forma, atrofiando sua habilidade de memorização. Não que não se deva usar a memória externa, deve-se. Entretanto, deve-se também levar em consideração que são necessários exercícios cerebrais para não se perder a habilidade natural de memorização de informações com que nascemos.

  2. Ótimo post, sempre fui fascinado pelo assunto “memória humana” e como as pessoas aprendem as coisas.
    O comentário do Alexandre faz bastante sentido.

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